A Canção da Saudade
Que tarde imensa e fria! Lá fora o vento
rodopia... Dança de folhas... Folhas, sonhos vãos, que passam, nesta dança
transitória, deixando em nós, no fundo da memória, o olhar de uns olhos e
a carícia de umas mãos. Ante a moldura de um retrato antigo, põe-se a
gente a evocar coisas emocionais. Tolda-se o olhar, o lábio treme, a alma se
aperta, tudo deserto... a vida em torno tão deserta que vontade nos vem de
sofrer mais! Depois, há sempre um cofre e desse cofre tiramos velhas
cartas, devagar... É a volúpia inervante de quem sofre: ler velhas cartas
e depois chorar. Que tarde imensa e fria! Nunca mais te verei... Nunca
mais me verás... Lá fora o vento rodopia... Que desejo me vem de sofrer
mais!
(Olegário Mariano)
|